O sofrimento no trabalho pela Psicanálise

Nem sempre é fácil identificar o que é o sofrimento no trabalho, quais são suas causas, seus motivos, de onde vêm e como resolvê-los.

Muitas vezes um Burnout não é tão explícito ou tão facilmente identificável.. Quando chega assim, é fácil reconhecer e tratar.

Mas na maioria dos casos, vai aparecendo com outra roupagem, através do que chamamos de Repetição.

Esse é um conceito importante para a Psicanálise.

Porque é através da Repetição que conseguimos localizar o Inconsciente.

Sabe aquele sentimento de que, por mais que mude de empresa, de equipe, de rotina.. certas sensações continuam voltando?

A mesma angústia no domingo à noite. A mesma dificuldade de começar o dia. A mesma sensação de estranhamento em relação ao próprio trabalho, mesmo quando as condições parecem até minimamente razoáveis.

A Psicanálise ajuda muito a pensar essas experiências justamente porque ela parte da ideia de que existe algo funcionando em nós que desconhecemos. Repetimos principalmente porque desconhecemos.

Nem sempre sabemos exatamente por que fazemos o que fazemos. Nem sempre entendemos por que insistimos em certas escolhas, certos padrões, certos modos de nos relacionar com o trabalho, com a cobrança, com o reconhecimento e até com o próprio sofrimento.

Às vezes a gente percebe que está cansado.. mas não consegue dizer o que exatamente está nos cansando.

Outras vezes sente que algo está errado, mas continua funcionando normalmente por muito tempo. Segue produzindo, enquanto alguma parte da vida parece estar ficando cada vez mais distante.

A Psicanálise talvez seja uma teoria importante para pensar o sofrimento no trabalho porque ela não tenta olhar apenas para o sintoma isolado, mas para aquilo que insiste por trás dele.

Pra tudo aquilo que pode carregar de inconsciente: causas, motivos, desejos, incômodos, conflitos, emoções reprimidas, sonhos esquecidos, planos interrompidos.

A repetição de certas situações. Os modos como nos colocamos diante das exigências. As formas de cobrança que carregamos. As escolhas que fizemos tentando corresponder a expectativas que nem sempre eram realmente nossas.

E talvez uma das coisas mais difíceis hoje seja justamente encontrar espaço para elaborar essas experiências.

Elaborar, pelas palavras, contar, narrar para alguém, que pode ouvir sem julgar, sem criticar, mas ao mesmo tempo, dar uma outra perspectiva.

Talvez essa seja uma das grandes formas que temos para lidar com o sofrimento: a fala para alguém que sabe o que e como escutar.

Porque vivemos num tempo muito acelerado, em que quase todo sofrimento rapidamente precisa virar: produtividade, gestão emocional, performance, adaptação, ou eficiência.

Mas existem questões que continuam voltando justamente porque ainda não puderam ser realmente escutadas e elaboradas.

Tenho a impressão de que muita gente hoje está funcionando no limite entre o cansaço, o esgotamento e uma sensação que sempre fica difícil de explicar, sem palavras pra dizer.. como se a própria vida tivesse começado a perder um pouco da densidade, do sentido, do prazer..

Principalmente por tudo que é preciso esconder, evitar pensar, nos enganar, fingir.. e especialmente por não ter espaço de compartilhar essas experiências.

Talvez seja importante poder olhar para isso sem transformar imediatamente tudo em defeito individual ou falta de esforço.

E nisso a Psicanálise traz uma abordagem muito interessante. Essa é minha aposta para o futuro da saúde mental no trabalho.